(Des)Convite à cerveja. Os jogos implícitos

Eu nunca fui uma pessoa antipática. Muito pelo contrário, independente do meu humor, nunca descontava nas pessoas o que acontecia comigo, individualmente. E então, eram sorrisos por todos os lados, independente do sexo, idade ou religião. Tanto a tia do cafezinho como o chefe, tentava tratar a todos da mesma maneira, com muita cordialidade. Claro que, simpatia e cordialidade são ações completamente distintas, porém, sempre fazia um esforço para que elas pudessem parecer as mesmas.
Algumas pessoas sempre me intrigavam por não entender o meu posicionamento e foi o que aconteceu na história que contarei.
Conversava, há alguns anos, com um grupo de homens que trabalhava no restaurante universitário. Como eu comia todos os dias por lá, sempre os encontrava e fazia questão de dar apenas um ‘oi’, mesmo não tendo muito assunto com eles. Sempre pensei que as pessoas pudessem trabalhar com o coração mais cheio de felicidade, assim que ouvissem um “obrigada” ou um sorriso sincero. Afinal, quem não gosta de ser bem tratado, independente de onde esteja?
Foi então que um dia, um deles me convidou para sair e tomar uma cerveja. Sem pensar em nada, afinal era apenas uma cerveja, como as que tomo com tantos amigos e amigas, aceitei o convite. Porém, sempre muito enrolada, nunca podia sair na data em que combinávamos. Passado algum tempo, ele também convidou uma amiga e ficamos devendo uma saída com ele. Confesso que fiquei até mais aliviada quando ele a convidou, pois, como não tinha interesse algum nele, a não ser em bater um bom papo, pude ter a certeza de que ele não planejava uma saída a dois e seria mais difícil de tentar armar um clima de romance se quisesse.
O tempo passou e nada de sairmos; cada dia era um problema: ou nós não tínhamos tempo, ou estaríamos fora da cidade etc etc. E sempre que tentávamos remarcar a data, um de seus amigos sempre me olhava, com um olhar desconfiado e um tanto comprometedor. Sentia um desconforto tremendo com este olhar e ficava mais encabulada quando, além do olhar, ele soltava algumas risadinhas. Muitas vezes, evitava conversar com eles, para que não passasse por este desconforto. A situação começou a ficar muito chata.
Foi aí que num dia qualquer, enquanto remarcávamos, mais uma vez, a nossa ida ao bar, eu disse:

“(...) ah, então tudo bem. Pode ser na sexta-feira. Eu ainda tenho alguns trabalhos, nesta semana, pra dar”.

E então, o outro cara, o do olhar, disse:

“É... eu sei o que você vai dar!” (risos).

No momento em que ele disse isso, fiquei sem reação. Na minha cabeça eu queria voar no pescoço dele, chamá-lo de machista, preconceituoso, ridículo, merda, escroto e muito mais. Mas não fiz nada. Absolutamente nada! Fiquei olhando para ele, enquanto ria. Quando ele parou de rir e viu que eu ainda estava olhando pra ele, calou-se. O outro cara, o do convite, ficou quieto e em nenhum momento se desculpou pelo amigo, pelo contrário, fingiu que nada aconteceu; Desconversou e voltou ao assunto da data. Enquanto falava, meu excesso de ódio interno, agora por ele, também se alastrava: seu merda, idiota, otário, queria só me comer, é? Filho da puta!
Mas o que eu fiz? NADA!
Fui embora, desconcertada, constrangida, humilhada. Sentindo-me a pessoa mais ridícula do mundo. Como não tive reação? Como não falei tudo o que pensava para eles? Porque nós mulheres, sempre nos silenciamos nestes momentos? Fiquei tão pirada com o que aconteceu que comecei a refletir sobre todas as tantas vezes que fui silenciada (por mim mesma?) em situações muito parecidas, desde com os próprios amigos, como com os namorados e mesmo a família.
Depois de tudo o que aconteceu, o mito de que, pelo menos, no espaço universitário as pessoas respeitam os posicionamentos da mulher e seus direitos, foi desmascarado. Nunca me encontrei num lugar onde as pessoas tratassem de forma comum uma mulher tomando uma cerveja sozinha; nunca tive a oportunidade de ser convidada a tomar uma, sem que houvesse segundas intenções, a não ser que seja com amigos (não que eles também se excluam disso).
O que o convite à cerveja representa, dentro da nossa sociedade? Até quando vamos ter medo de dizer o que pensamos e nos silenciar na nossa humilhação individual?

Não quero fazer deste texto um manifesto contra um simples ato cotidiano de muitos indivíduos, nem mesmo deixar de dizer que sou sim e continuo sendo mais uma das tantas adoradoras desta grande bebida que, as boas línguas dizem “água que passarinho não bebe”. E mesmo depois de tudo isso, continuo com o mesmo posicionamento de sempre. Porém, gostaria que tratássemos deste simples ato (aparentemente simples) de uma forma mais reflexiva, como mais uma forma de ação social, referente ao nosso sistema atual, dentro de uma política excludente, sexista e desigual.


Larissa Lisboa
Coletivo Feminista

4 comentários:

Oswaldir disse...

Meu!!!

Mas olhe que viagem do cara querer te comer... vc já começa falando que é uma pessoa cordial... sexo e cordialidade não combinam nunca...

"Sempre pensei que as pessoas pudessem trabalhar com o coração mais cheio de felicidade"... essa pira de campinas de querer encher o coração das pessoas de felicidade é que eu não entendo... se o cara quiser encher o coração dele de Tezão, deixa ele meu...

"Porque nós mulheres, sempre nos silenciamos nestes momentos?"... Afff... fale por vc... tem um monte de mulher que aproveita a deixa e já era...

Meu deus... mas que posicionamento??? vc nem se posicionou??? vai respeitar de que jeito??? Se posicionasse então, falasse que era uma virgem recalcada, que sexo não era tua praia, sei lá... teu posicionamento é ficar muda??? Teve uma amiga minha semana passada que a conversa era sobre sexo e ela chegou falando que a posição preferida dela era por cima mandando... isso é um posicionamento...

Se eu fosse você, em vez de gastar seu tempo escrevendo esse manifesto sem sentido eu sairia dar uma boa trepada...

Anônimo disse...

Oswaldir, acho que vc não compreendeu a indignação da Larissa!!
Imagino que a revolta dela está na associação (feita pelo cara) entre cerveja e sexo.
Talvez seria interessante pensar sobre as propagandas de cerveja onde meninas estão de biquini ou ousadamente servem a cerveja gelada, tudo isso mexe com nossas fantasias sem dúvida....mais não dá para estaas fantasias permearem a todo instante nossos pensamentos...o infeliz do cara pode-se dizer que é limitado...limitado a uma associação fantasiosa...assim como a larissa acho que espero do mundo pessoas com visões mais reais das coisas....trepar seria assim uma possibilidade mais não uma regra...

Mafaldita disse...

Olá...

Acho desnecessário comentar o qto é preconceituoso o comentário de Oswaldir, aliás muito parecido com a mentalidade da maioria dos homens, que não conseguem imaginar que existam relações pessoais sem interesses ou que mulheres não podem ser apenas amigas de homens... é natural que se deseje mais de pessoas do meio universitário pois se espera um maior esclarecimento e conhecimento destas.

Qto ao "Se eu fosse você, em vez de gastar seu tempo escrevendo esse manifesto sem sentido eu sairia dar uma boa trepada..." ou "Se posicionasse então, falasse que era uma virgem recalcada, que sexo não era tua praia, sei lá..." pq tudo deveria ser resumido ao sexo, pq se não existe interesse sexual por parte da mulher ela deve ter algum problema, ela simplesmente pode não sentir atração por AQUELE HOMEM ESPECÍFICO, acho terrível qdo uma mulher esta de mal humor e vem logo algum engraçadinho pra dizer "tá de TPM", ou "é falta de sexo" ou "deve ser frígida" ou "mulher mal comida é assim..." qdo falta inteligência pra encontrarem qualquer outra explicação ou imaginar que pessoas tem problemas e nem sempre precisam mantêr o bom humor, o resultado são esses comentários sexistas, preconceituosos e desnecessários.

Sexo é bom e creio que em geral as pessoas gostem e pratiquem, porém existem outras prioridadses na vida e preocupações como trabalho, estudos, dinheiro etc e realmente não dá pra passar o dia todo pensando ou fazendo sexo, nem resumir o seu humor diário ao desempenho da sua transa da noite anterior... a vida é muito mais complexa do que apenas isso...

E Larissa eu imagino toda a revolta que você deve ter sentido diante da situação, e acho que todas as mulheres que conseguem refletir sobre sua realidade também já passaram por algum momento semelhante e a falta de reação diante dos fatos é normal pq vc não esperava por aquilo e diante da raiva deve ter ficado em choque e perdida, mas realmente é preciso algum posicionamento sobre o assunto, aqueles homens merecem uma boa resposta para não acharem que podem sair fazendo isso com as mulheres, devem aprender que merecemos respeito e tudo não se resume a sexo.

São momentos como aquele que passou que geram o fortalecimento de suas convicções como mulher e feminista numa sociedade opressora e machista como a nossa, e mostram como a nossa luta ainda tem muito o que crescer e fazer.

Elandia Duarte disse...

“Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda”

Rita Lee/ Zélia Duncan


Bem comecemos por esclarecer três verdades absolutas:


1ª Eu adoro ir ao cinema sozinha, pra mim esse é quase um ritual espiritual. Pôr aquele tomara que caia, me maquiar, arrumar o cabelo de forma inusitada, Caminhar...


2ª Nunca fui uma pessoa muito sociável, por mais contraditório que isso possa soar, essa é uma verdade da qual nunca duvidei.


3ª Como sou uma pessoa que preza por seu espaço, como afirmei acima, parece completamente aceitável que eu gosto de vez ou outra, fazer coisas acompanhada de mim mesma simplesmente.


Pois bem,quando num sábado á tarde me permito deixar para trás a correção de mais de cento e vinte provas para ir assistir há um filme, no qual figura a atuação de um dos meus atores favoritos e após a sessão de cinema me dou o direito de continuar um pouco mais a negligenciar a minha própria pessoa sentando numa cervejaria solicitando ao garçom um pastel e uma cerveja bem gelada, não há nesse ato nada de subliminar, nada a ser interpretado. Sou apenas uma mulher se permitindo viver algo que lhe faz bem.


Parece absurdo ter de esclarecer isso, mas fato é que tonou-se lugar comum na nossa sociedade achar que uma mulher sozinha numa mesa de bar só pode estar apontando duas vertentes: Ou ela está depressiva e necessitando beber o quanto antes uma cerveja que não deu nem pra esperar as outras amigas, ou ela estar procurando “companhia”, bem para que falsos pudores, ou ela estar procurando “sexo”, o que encoraja os senhores másculos e bem resolvidos a lhes pagarem uma cerveja.


Não vou nem entrar no mérito da questão se alguém já conseguiu atingir seu intento assim, quero apenas deixar bem claro, que de minha parte tenho táticas diferenciadas pra alcançar tal intento e me irrita extremamente quando algum ser do sexo aposto se acho no direito de me interpretar e me pagar cerveja a qual não solicitei.


Agora me corrijam se eu estiver errada, pois me encontro num processo de reavaliação e correção de falhas de caráter. O cara invade meu espaço, age como se me conhecesse interrompendo um momento que é só meu e, eu ainda é que figuro de grossa ou mal educada quando respondo ao garçom pra devolver a cerveja pois não solicitei nada a tal senhor.


Sociedade mais equivocada é essa nossa!



Escrevi isso faz algum tempo, achei incrivel como a situação é identica.
Fato que de certa forma me entristece faz ver como a machismo e amplo e irrestrito.