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MULHERES ESCRITORAS: HEROÍNAS MEMORÁVEIS E OCULTAS

"Mais do que o falar, o escrever para as mulheres tem sido visto como a usurpação de um direito que não lhes pertence e, ademais, como uma prática inútil, como aquilo não lhes corresponde. Disse Virginia Woolf: Creio que passará ainda muito tempo até que uma mulher possa sentar-se a escrever um livro sem que surja um fantasma que deve ser assassinado, sem que apareça uma pedra no meio do seu caminho.
Do livro de Yadira Calvo À mulher pela palavra, me permito mostrar algumas histórias. A de Fanny Burney queimando todos os seus originais e colocando-se a fazer trabalho de ponto como penitência por escrever. A de Charlotte Brönte deixando de lado o manuscrito de Jane Eyre para descascar batatas. A de Jane Austen escondendo os papéis cada vez que entrava alguém, pela vergonha de que a vissem escrever. A de Katherine Anne Porter declarando haver tardado vinte anos para escrever uma novela. Era sempre interrompida por alguém que, em algum momento aparecia no meu caminho. Porter calculava que só pode empregar uns dez por cento de suas energias para escrever. Os outros noventa por centro usei para poder manter minha cabeça fora d´água, dizia.

Recordo essa foto de María Moliner remendando meias com um ovo de madeira, enquanto escrevia sua obra, Dicionário do uso do castelhano ia nascendo entre panelas e coadores. Leio as queixas de uma Katherine Mansfield reprovando a seu marido: Estou escrevendo mas tu gritas: São cinco horas, onde está meu chá? Ou o doce lamento de uma cubana do século passado que não assinou suas obras: Quantas vezes lentamente/ com plácida inspiração/ formei uma oitava na minha mente/ e minha agulha inteligente/ remendava uma calça! Por isso disse Virginia Woolf a propósito da duquesa de Newcastle: Sabia escrever na sua juventude. Mas suas fadas, caso tenham sobrevivido, se transformaram e hipopótamos.

Outro fato gravíssimo: a atribuição das obras das mulheres a outros, e em especial a seus maridos. Esse deve ter sido um fenômeno muito freqüente pois temos muitas referências. Desde o artigo publicado em 1866 por Rosalía de Castro As literatas: carta a Eduarda, onde a escritora faz essa advertência, até as palavras de Adela Zamudio, escritora boliviana do século XX: Se alguns versos escreve /de alguns esses versos são,/ que ela apenas os subscreve/ (Permita-me que me assombre.)/ Se é alguém não é poeta,/ Por que tal suposição?/ Por que é homem!

Estão também os fatos históricamente comprovados: o célebre caso de María Lejarraga, autora das obras assinadas por seu marido Gregorio Martínez Sierra. E o fato de que foi o marido quem proibiu a Zelda Fitzgerald de publicar seu Diário porque ele o necessitava para seu próprio trabalho. E as primeiras obras de Colette que apareceram assinadas com o nome de seu marido, que inclusive cobrou o dinheiro de sua venda. Alguém dirá que vou muito atrás e que a humanidade mudou nos últimos vinte séculos. Pois bem, no ano 2000 e na Espanha só dez por cento dos livros publicadas foram escritos por mulheres.

MUDAR A LINGUAGEM, MUDARÁ A REALIDADE

Não obstante, existem mulheres capazes de escalar a encosta do proibido, de roubar da vida esses dez por cento de energia necessários para manter a cabeça fora da água. E a mantém. E escrevem. E editam. E aquí seguimos todas as demais. Lutando e celebrando os novos êxitos. Estendendo a rede para que todas as mulheres da terra tenham direito à voz, à palavra. Sabendo que vemos o mundo através do tecido formado pela língua e motivadas pela certeza de que a linguagem sexista, a que aprendemos, contribui para a perpetuação do patriarcado. Sabendo também que quando tenhamos uma linguagem que nos represente mudará a realidade. Por isso seguimos adiante. E não adormecemos mais às meninas com contos de fadas. Dizemos que as boas meninas vão para o céu e as más vão para todos lugares. E que colorín colorado, esta historia no ha acabado.' Teresa Meana - Sexismo e Linguagem - algumas notas [...]"

http://enrebeldia.blogspot.com/2006/11/sexismo-en-el-lenguaje-apuntes-bsicos.html , acessado em dezembro/2007.

Semana do Babado - 11 a 15 de maio

Manifesto: corpos e violência

O machismo, o racismo e a homofobia são por excelência violentos. Violência que atinge não só o corpo mas que nos agride psíquica e simbolicamente. A violência da imposição de papéis, de um modelo sexual, de padrões de comportamento. A violência que marca o corpo mas também aquela que apesar de não deixar marcas físicas nos silencia cotidianamente. Queremos uma sociedade na qual diferenças não sejam um fator de hierarquização e violência. Que o nosso corpo (seja cor da pele ou sexo) não seja fator de exclusão. Que possamos viver nossa vida sem os papéis de gênero e exercer livremente nossa sexualidade.

Não queremos pouco, desejamos implodir essa sociedade sexista e homofóbica. Cansamos de pedir o possível, o assimilável. Queremos tudo, tudo que nos foi e é negado. É claro que sabemos que não basta nossa vontade para transformar essa realidade e que esse processo é violentamente lento. Queremos com esse evento socializar discussões que realizamos dentro do Coletivo Feminista e do NUDU. Debater essa violência que sofremos muitas vezes calados/as no dia-a-dia, achando, muitas vezes, que é um problema pessoal, privado.

Queremos trocar experiências, soltar a língua, descobrir afinidades.
Queremos nos conhecer, discutir nossos corpos, nossas angústias, enfrentar os fantasmas que nos perseguem e dizer em alto e bom som abaixo a hipocrisia, o machismo, a homofobia e todo esse sistema que sustenta tanta iniqüidade e opressão.

Perceber que nas manifestações cotidianas do machismo, racismo e homofobia há estruturas que precisam ser combatidas coletivamente, assim certamente será um primeiro passo da nossa longa batalha.

Programação da Semana do Babado:
Segunda-feira, 11/05/2009, 19horas em São Paulo
Abertura da frente estadual contra a criminalização do aborto
Quarta-feira, 13/05/2009, 12horas no CALL/Unicamp
Literatura e Sexualidade - Debate com a professora Suzi Sperber
Quarta-feira, 13/05/2009, 17:30 no CAE/Unicamp
Cine CAE: "Entrando numa fria" + Debate
Quarta-feira, 13/05/2009, 17:30 no CACH/Unicamp
A crise e os seus desdobramentos para a mulher negra
Mesa de debate + Filme + Bate-papo
Quarta-feira, 13/05/2009, 17:30 no CACT/Unicamp
As várias formas de violência contra as mulheres
Quinta-feira, 14/05/2009, 17horas numa sala da FEF/Unicamp
Mulheres e corpo no esporte - Debate com a professora Helena Altmann
depois, happy-hour temático às 17:30no CAEF
Sexta-feira, 15/05/2009, 23horas no IFCH
Bafão de encerramento!!

Organização: Coletivo Feminista e NUDU (Núcleo de diversidade da Unicamp)