crônicas do cotidiano - pula fogueira iaiá

enquanto a luta pela legalização do aborto se estrangula para derrubar certos moralismos, num mundo não muito distante eles se constróem.

inaugurando um projeto de crônicas do cotidiano, uma feminista que, de volta às suas raízes e lugares da infância, distanciadamente se indigna,
ferNandaLeão:

: hoje, domingo frio e cinzento, acabo de voltar da apresentação da dança de festa junina da irmã (7 anos, 1ª série) de uma amiga.
De um lado meninas, do outro meninos, ao fundo o som de ivete sangalo & zezé di camargo. eles de paletó
elas...todas vestidas de noiva. todas brancas, flores, blush e pintinhas caipiras, véu, grinalda, repetidamente.
As mães, antes em casa maquiavam e produziam os corpos de suas filhas, e entre o rimel e o batom diziam 'mas que noivinha linda, seu noivo vai se apaixonar, a mamãe tem tanto orgulho de você que já está crescendo e logo irá com papai ao altar'. tempo presente, roda formada, o público aguarda e elas sorriem, filmam, tiram fotos e comentam extasiadas como tudo aquilo é uma graça. tão pequenas e já tão mocinhas!
corpos sensualizados rebolando e se fazendo de difícil acompanhando a música que ditando aquela fórmula ele+ela+matrimonio+sagrado+convenção (como se tudo isso fosse a unica saida para a complitude humana que se busca num amor encaixotado) na letra hermética dizia:

"Tá com medo/De olhar nos meus olhos/Por que sabe que não vai segurar/Coco que balança cai/Se tem fumaça, tem fogo/Amor que fica não sai

Tenho medo/De olhar nos seus olhos/Porque sei que posso não resistir/Não quero pagar pra ver/Pra ter que sair daqui/Grudadinha com você

Sou abelha do seu mel/Tô na onda do seu mar/Sou a lua do seu céu/Sua estrela a brilhar/Sou sua outra metade/Quero entrar na sua história/Me carregue com você/Não me deixe lado de fora

Um amor assim fogoso/Não é fácil encontrar/Todo esse seu chamego/É só pra me conquistar/Sei das suas artimanhas/Do que você tá a fim/Toma seu jeito garoto/Que eu não quero encrenca/Pra mim"

(amor que fica)

e diante da cena, reverberava em minha cabeça versos do clássico junino...
cuidado para não se queimar, pois a fogueira já queimou o meu amor.

(...) continua...

2 comentários:

disse...

Lembrei da minha adolescência porque estudei em colégio só de meninas, então quando chegava essa época,a gente tinha que se dividir nas quadrilhas: metade se vestia de homem e metade de mulher. E eu sempre queria ser homem - não gostava de me emperequetar - achava um saco. E se vestir do sexo oposto era bem + divertido. Agora lembrei que no colégio onde estudam só meninos, não tinha quadrilha - imagina que os meninos iam fazer papel de meninas? Quantos comentários não iam ter a respeito disso? Impensável!!!

Larissa Lisboa disse...

Pois é...é muito interessante pensar no próprio papel de formação da escola.
Uma instituição construida, inicialmente, só para homens, mas que não se moldou para a entrada de mulheres.

obs: Na minha escola, a noiva da quadrilha era sempre a menina mais bonita da sala (loira e de olhos verdes)